Nas Bordas do Tempo
Uma multidão de andorinhas no céu despontava aos nossos olhos. Era a tarde de sábado, as lindas aves estavam para pousar nas árvores da praça central, quando Verônica disse:
– Venha, Julien, escute o barulho da máquina registradora na bilheteria, olhe os cartazes dos filmes nas paredes. Com bilhetes em mãos, as pessoas caminhavam para a catraca de entrada, enquanto um senhor alto e magro pedia o documento, para confirmar a idade. Aos poucos o cinema revelava suas essências: no canto próximo ao baleiro, um sofá com os pés escuros e com tecido vermelho revestindo seu assento, as cortinas vermelhas que separavam esse espaço preliminar do filme, as paqueras e as trocas de olhares. Uma mulher de vestido curto vendia balas, chocolates e refrigerantes. Era 1979, Verônica e Julien estavam de férias da Faculdade, eram estudantes de Filosofia.
– Verônica, vamos ao passeio, voltaremos ao cinema, ainda hoje, na última sessão, disse Julien. Os dois saíram de mãos dadas rumo à praça, próxima à catedral. Um vento frio ao som do mover em bandos das andorinhas mobilizava as pessoas a assistirem esse espetáculo da natureza. O tempo naquela tarde estava nublado, era julho, mas um “outro tempo" cobria a cidade, o tempo da ditadura militar.
Caminhando pela rua central, Julien com seu casaco cumprido e cachecol estava abraçado a Veronica, quando ela disse:
– Julien, vamos entrar nessa sala de jogos, depois comemos o novo “cachorrão quente”; deram risadas os dois. Entraram no templo da juventude, os jogos eletrônicos, Fliperamas, Asteroides, Galaxian, Star Raiders. – Gosto de Galaxian, porque destruo as naves com tiros, disse Julien, jogando com fulgor. Verônica se deliciava no Fliperama, batendo os dedos das duas mãos fortemente na máquina do jogo. Um senhor que vendia as fichas dos jogos assistia numa televisão preto e branco o campeonato brasileiro. Na verdade não havia quase nada colorido, geralmente as cores escuras eram o quê prevalecia que sobre as paredes frias e silenciosas daquele período.
– Já perdemos muitas fichas e estou com fome, Verônica, vamos comer o novo cachorro quente. Os rapazes paqueravam Verônica, uma jovem de cabelos pretos e longos, e um jeito de ser todo singular, um certo ar de ingenuidade, mas um espírito livre. Julien tinha ciúmes dela e afirmou : “Vamos embora daqui”. Os dois imediatamente foram para a lanchonete.
– É interessante, aqui no interior já tem o self-service de cachorro quente, veja Verônica: purê de batatas, saladas, os pães maiores, e salsichas também, maravilhoso, vou caprichar. Os dois encheram os pães de coisas e por cima muito ketchup e maionese. Pegaram coca-cola da máquina e com apetite aguçado comiam e davam risadas. A lanchonete tinha poucas pessoas, estava frio e as nuvens escureciam. O tempo era o inverno de 1979. Verônica segurava nas mãos de Julien, estavam felizes, porque voltariam das férias para o último semestre da Faculdade de Filosofia. Inesperadamente, Julien perguntou:
– O que é o tempo, Verônica?
– Bem, Julien, para o filósofo Kant existe um tempo absoluto que precede todas as coisas, ou melhor, é como as montanhas do Himalaia, nada abala ou muda esse tempo, como ele mesmo disse: “não é o tempo que muda, mas as coisas que estão no tempo”. Portanto, Julien, não podemos conceber o tempo, porque não é algo nosso, mas vem antes de todas as coisas, é um a priori, absoluto e poderoso. Você não acha , Julien?
– Se o tempo não é “nosso”, Verônica , então não existe tempo porque somos nós seres humanos que pensamos e fazemos a linguagem do tempo. De mãos dadas, caminhavam pelo calçadão, as crianças cercavam o pipoqueiro, com seu carrinho de vidro em que desvelavam pipocas doces, salgadas e amendoim, e o cheiro das pipocas atravessava toda a praça. O seu João tentava ligar o lampião a gás para colocar dentro do carrinho de pipocas, as crianças olhavam com atenção. A noite adentrava ao existir daquele espaço, as luzes dos postes começavam a acender nos grandes luminosos da praça. E Julien disse:
– Vamos para o banco da praça. Sentaram-se e começaram a comer pipocas, as crianças corriam pela praça e os engraxates lutavam por alguém para engraxar os sapatos na noite que se aproximava. Um senhor de idade, sozinho, ocupava um banco, seus olhos soltavam ao longe, as andorinhas nos galhos das árvores silenciavam-se. O frio aumentava e a praça começava a esvaziar-se. A praça sem o Homem tornava-se triste, não havia cores vivas nos prédios centrais, mas as paredes estavam ali, silenciosamente davam testemunha de outros tempos. E Julien novamente perguntou :
– O que é o tempo Verônica?
– Bem, Julien, pesquisei bastante sobre o “tempo” nos grandes pensadores: Heidegger, Hegel, Kant, Agostinho, suas grandes contribuições são importantes para entender o que é o tempo, mas aprecio ter meus “partos de ideias”. Deram risadas os dois sentados na praça.
– O tempo procura roubar a essência de nossa vida, o tempo nos aliena e prende a nos um espaço, o tempo nos coloca num “circunscrito” da vida, tipo um cercado, um limite, e você sabe por que, Julien? Porque o tempo está ligado ao pensamento, nós pensamos e refletimos o tempo, o tempo não existe sem o ato do pensar. Mesmo sendo o “pensar” uma usina de ideias e criações, como dizia o filósofo Gilles Deleuze, todavia, estamos “circunscritos” a um espaço de vivência, como a sala de jogos, nosso pensar se alienou naquele momento ao estarmos conectados às máquinas eletrônicas. Portanto, o ato do pensar apenas recolhe as bordas e os retalhos do tempo, o pensar no tempo, não é onipresente e absoluto.
– Verônica, reflexão profunda sobre o tempo, afirmou Julien. De repente, o chafariz ligou uma explosão de cores em movimento nas águas, trouxe um ar novo à praça.
O tempo pode ser onipresente, “uma rocha” como você disse, Veronica, ao referir-se ao filósofo Kant, mas o nosso pensar, pela sua reflexão de agora, vivencia retalhos, uma borda desse tempo absoluto. Por exemplo, nosso pensar de agora pensa as coisas ao nosso redor, esse pensar restringe-se às migalhas e às bordas de um tempo onipresente. Não podemos estar no tempo que se desvela próximo ao rio Siena em Paris, com suas lindas pontes, ao mesmo tempo de nossa vivência neste espaço que se desdobra ao nosso redor neste instante, como o carrinho de pipoca logo ali na esquina. Assim é para os franceses também, não poderão ir conosco ao cinema daqui a pouco. Estamos nas bordas do tempo e do espaço. O pensar está encarnado num corpo, existente num espaço que já possui uma maneira de pensar, sentir e existir num tempo e espaço “circunscrito”, ou melhor, nas bordas de um tempo que se coloca como absoluto e poderoso, a priori.
– Qual a saída para sairmos desse tempo circunscrito, Julien?
– A Filosofia nos permite a todo momento sair do circunscrito, Verônica, só de pensar o que é o tempo já é um atravessar das cercas das circuncisões que se instauram para nós. Na Filosofia, não existe ponto final para nada, há uma abertura movente para tudo que existe, inclusive ao absoluto do tempo onipresente, como Kant postulava, mas vamos para o cinema, Verônica.
Era final da década de setenta, os cinemas lotavam, as praças eram habitadas. – Voltamos a ouvir a máquina registradora, Julien, a catraca movimenta-se. As pessoas estavam agasalhadas para a sessão das 20:00 hrs, logo o filme começaria e Veronica disse:
– Julien, a música é linda, “concerto de um verão”.
Aos poucos as luzes vão apagando-se, o piano no canto, o silêncio pairava naquela sala enorme de cinema.
– Estamos circunscritos agora num tempo de 2 horas, mas é um momento singular de nossas vidas, porque é a “7ª arte”, o cinema, Verônica, nesse retalho do tempo muitas coisas ocorrerão, novas descobertas, uma multiplicidade de cores e movimentos, histórias, namoros, amor e o prazer da vida, ainda que circunscrita nas migalhas de um tempo absoluto.
Inesperadamente, uma explosão de imagens saíram da grande tela do cinema, a música foi silenciando-se, as pessoas atentas esperavam o espetáculo começar. A sessão terminaria às 22 horas, era sábado de inverno.
De repente, aquele tempo absoluto que Kant afirmava existir como uma rocha independente de tudo, teve que ceder para um outro tempo: finito, frágil, circunscrito, mas que permite ao homem viver, ter prazer e dar sentido a seu existir. Esse tempo Absoluto inveja-se de um tempo que não faz parte de sua natureza, o tempo “finito, frágil, em migalhas”.
– Silêncio, Julien, o filme começou. O som do filme aumentou, a escuridão tomou conta e Julien, inesperadamente, beijou Verônica, nas bordas de um tempo Absoluto, mas ele a beijou. O filme começou. Era julho de 1979.