Era inverno, madrugada,
ainda estava escuro. O carro lentamente parou próximo à Estação
de trem, o taxista abriu a porta. Sabrina e Mateus desceram, rumo à
estação. Um vento gelado e uma fina chuva caiam sobre as coisas, um
senhor de idade atravessava a rua e Mateus, olhando tudo, disse:
– Sabrina, chegou o
inverno, vamos tomar café na Estação, enquanto o trem ainda não
chega.
– Sim, vamos respondeu
ela, ao despedir-se do taxista.
A Cafeteria estava
linda, revistas, jornais, pessoas se aproximavam do balcão, o cheiro
do café transpassava aquele espaço. Mateus e Sabrina sentaram-se
numa mesa redonda de madeira escura, estavam bem agasalhados, e ela,
ao pegar a xícara de café, logo disse:
– Mateus, vamos
dialogar com o filósofo Kant, principalmente em sua obra mais
importante, a Crítica da Razão Pura, que afirmam ser uma revolução
na Filosofia.
Na mesa oposta, um casal
lia o jornal, de mãos dadas sobre a mesa. De repente o barulho do
trem os fizeram levantar-se: – Vamos Sabrina, dialogaremos bastante
de Filosofia na viagem!
– Percebe Sabrina?!
Nos bancos de sentar próximos ao embarque dos vagões, os nomes
antigos dos heróis da cidade estão escritos no concreto daqueles
assentos, que já desvelam como a história foi tratada naquela
cidade: fatos, heróis e datas; mas as crianças, o cinema, o
cotidiano e as mulheres, geralmente, estão fora da História. Num
assento próximo a uma enorme coluna de ferro, um casal de cegos e o
cachorro com frio quieto dormia ao lado, em plena manhã de inverno,
ganhavam a vida ao tocar violão para os transeuntes que ali
atravessam, no interior da estação.
Do interior do vagão,
pela janela, sentiram o mover do trem, e ao longe avistaram as
pessoas se dirigindo para seus postos de trabalho naquela região
central da cidade, e Mateus falou:
– Sabrina, você tem
ideia do que Kant queria dizer com aquele capítulo “Estética
Transcendental”? Parece que esse filósofo alemão de Konigsberg
gostava, como dizia Deleuze, de criar e inventar novos conceitos e
termos. Sorriu e disse: Você sabe o que são os termos “estética”
e “transcendental”?
– Sei que “estética”
na Filosofia é tratada por vários pensadores que tentam entender o
discurso do belo na Arte, em suas variadas expressões, enquanto
“transcendental” aponta até para transcender na questão
religiosa para algo superior. Mas como é possível dialogar com
Kant?
– O filósofo Kant não
está presente fisicamente, mas suas obras e escritos estão
presentes, e portanto é pelos textos que vamos dialogar com esse
“outro” chamado Kant, – mas como? replicou Sabrina.
O trem atravessava
paralelamente a floresta verde e os canaviais, as grandes máquinas
colheitadeiras cortavam e colhiam “as canas” sem quase a presença
do homem, é o mundo tecnológico.
– Mas antes me lembro,
Sabrina, os trabalhadores com seus facões, sem dó dilaceravam os
pés de cana, desses enormes canaviais, era o “trabalho duro”,
suas botinas os protegiam das cobras e de outros perigos. Nem o
barulho do trem parava os movimentos dos cortes daquela enorme
máquina dirigida por um trabalhador, pois era a safra e precisava
ganhar dinheiro.
– Estou com fome,
vamos ao restaurante! Sim, disse Mateus. O trem movia lentamente, ao
atravessar uma cidade pequena e antiga, de poucos moradores. Mateus
estendeu o celular e fotografou um casarão colonial antigo. –
Linda casa! Afirmou o filósofo.
– Bem Mateus,
sirva-se, porque eu com esse lanche acho que estou tendo um certo
conhecimento!!! Deram risadas os dois. – Sim Sabrina, os sentidos,
o corpo na totalidade, as percepções e os modos de perceber a
realidade, os “perceptos” no dizer do filósofo Deleuze são
meios por excelência de possibilitar os “saberes”. Entretanto de
forma muito especial quem tratou dessa questão foi David Hume,
filósofo empirista, mas vamos voltar para o texto de Kant. Um senhor
de óculos grandes, sentado num canto numa mesa retangular, sozinho,
percebia todo o movimento do restaurante, talvez o deleite dele era a
observação minuciosa daquele espaço de alimentação no interior
do trem.
O que seria o saber que
vem antes, o “a priori” de Kant? Perguntou Sabrina.
– Sabrina, antes de
sairmos do restaurante reflita comigo, você vê essa xícara agora,
não é? Sim, disse ela. Então faça esse exercício em sua mente
que o próprio Kant um dia fez: “Se
retiro de um corpo (uma
xícara) aquilo que
o entendimento
nele pensa, como
substância,
força, divisibilidade, etc.., também aquilo que nele pensa pertence
à sensação, como impenetrabilidade, dureza, etc..ainda me resta
algo”. Agora, faça o mesmo que Kant fez com a
xícara aqui em cima da mesa. O idoso olhava e escutava a conversa
sentado na mesa no canto, disfarçadamente mexia no celular – Sim
Mateus, retirei tudo da xícara, forma, cor, estética, tudo, mas o
que sobrou de tudo isso? O nada é isso? Com grande expectativa
queria a resposta, Sabrina.
– Sabrina, vamos
deixar que o próprio Kant responda para nó: “Se
vocês deixarem que se apague gradativamente (...)
de um corpo, tudo que é nele empírico (sensações)
– a cor, a dureza ou maciez, o peso, mesmo a impenetrabilidade –,
permanecerá todavia o espaço (agora inteiramente
desaparecido) e este vocês não poderão deixar de fora.”
O senhor de idade no canto tossia sem parar, mas ao levar a xícara
de café na boca, acalmou-se.
– Nossa, fantástica a
ideia de Kant, então ele queria dizer que as coisas, os objetos:
cadeira, mesa, casa, sapato, garfo, porta, estante, sabonetes, etc.,
existem num espaço “a priori”, como as árvores grudadas nas
montanhas, Sabrina sorriu. No entanto, o que seria esse “espaço”
para Kant? Ele realmente existe?
– Sabrina, vamos dar
uma volta nos vagões do trem e perceber o espaço que estamos
vivenciando nesse momento, pois é dele que vamos tratar, não é?
Eles levantaram-se lentamente e os longos cabelos preto grisalhos de
Sabrina deslocaram-se para trás por cima de seu casaco. Enquanto o
idoso levantou, pegou sua muleta colonial de imbuia, e com olhos
cansados admirava o desejo daqueles dois jovens mergulhados tentando
entender as construções de Kant, que mudaria a Filosofia para
sempre.
– Enquanto caminhamos,
Sabrina, vamos já pensar no que o próprio Kant indagou: “O
que são então o espaço e o tempo? São entes (coisas)
reais?”. O frio aumentava e a neblina cobria as
variadas vegetações, o trem estava lotado, pessoas usavam seus
celulares. Enquanto, Sabrina disse:
– “Espaço”, o que
seria esse espaço a “priori” de Kant, Mateus?
– Sabrina, está vendo
aquela mesa em forma triangular, no canto, ela nos leva a refletir
algo importante: como construímos a ideia dessa mesa? Como foi
possível? – Mateus estou vendo que é uma linda mesa de imbuia
entalhada, e de estilo colonial onde ficam os cardápios, mas como
conseguimos construir tal ideia ?
Para que houvesse uma
percepção em torno da coisa “mesa”, foram necessárias as
sensações, o ver, tocar e sentir, ou melhor, uma infinidade de
canais que os sentidos “transportaram” para a mente, pedindo
atenção, entendimento. Entendimento, o que seria? Disse Sabrina.
– Sabrina tudo segue
uma lógica, ao construirmos o pensar da mesa, e que aponta para
indagação: De onde vem essa ordem, essa sequência e unidade?
– Das próprias coisas
que não podem vir, porque Kant dizia “percepções
sem concepções
são cegas”, ou melhor, o mundo tem ordem não por
si mesmo, mas porque o pensamento, o “logos”, a “razão”, que
o conhece é ele mesmo uma ordenação, “algo lógico”. O frio
atravessava todos os vagões, as pessoas pouco falavam, mesmo com as
janelas fechadas. Sabrina com ar de sono encostou sua cabeça no
ombro de Mateus e disse:
– Parece que tudo já
está programado na vida, tudo que está fora de nós é absoluto e
poderoso, e nós o que somos diante da finitude da vida? Enquanto
isso, ela fixava os olhos numa senhora de idade, acompanhada de seu
neto, uma linda criança. Sabrina adormeceu, enquanto Mateus também
fechava os olhos, ouvindo a criança dizer : – Vovó, preciso ir
ao banheiro.
A sirene do trem
aumentava ao aproximar-se da estação. Sabrina acordou e Mateus
disse: vamos tomar um café? Sim vamos! disse Sabrina.
Ao mexer o café na
mesa, Mateus afirmou:
– Vamos deixar Kant
falar, Sabrina, porque agora a mesa triangular está próxima de nós
e sobre ela descansam os cardápios: “assim,
também nenhum princípio geométrico
– por exemplo, o de que no triângulo,
dois lados somados são maiores que o
terceiro - é
jamais deduzido de conceitos universais de linha e triângulo, mas
sim da intuição,
e isto é
a priori”.
– Mateus, então o
triângulo já é existente em meu pesamento, isso me cheira herança
de Platão, “ideias pré-existentes”, é isso? Sabrina bebia café
e sorriu, quando afirmou:
– Essa viagem está
maravilhosa, com descobertas e criações, um sentido diferente de
viver no mundo, Mateus!
– Esse absoluto, essa
coisa poderosa, o “espaço”, só é possível a partir do ponto
de vista do homem, porque se sairmos dessa única condição
subjetiva do ser humano de pensar, as coisas, o espaço, não
existiriam. Vamos pensar, Sabrina, em algo que perpassa o nosso
existir a todo momento, ou melhor, o tempo. O que seria essa
concepção de tempo para Kant?
O trem aumentava a
velocidade, logo chegariam ao destino prometido, o grande astro, o
“sol” ao longe desaparecia, e Sabrina falou:
– Parece que na
Crítica da Razão Pura, Kant pensa o tempo como algo parecido com a
concepção de espaço, olha o que ele diz: “que
o tempo não é algo que subsista por si mesmo ou que se ligue às
coisas como determinação
objetiva”. Portanto, como o espaço, ele é um a
priori, uma “rocha” no qual são pendurados os “outros tempos”,
algo que vem antes de qualquer concepção de tempo, e tem uma
definição interessante dele, “o que
se modifica não é o tempo mesmo, mas algo que está no tempo”.
Uma chuva de inverno
cobria as pastagens verdes de um extenso campo, o silêncio desvelava
sua quietude nos vagões, enquanto uns liam, outros namoravam, ou
mexiam nos celulares, mas o trem avançava para o grande centro, o
barulho dos carros e das máquinas ao longe já despontavam nos
ouvidos dos passageiros.
– Sabrina, o tempo é
mais uma determinação a priori, não adianta querer concebê-lo
como número ou prazo de validade embutido numa mercadoria, ou dizer
um período de tempo da História, nada disso é tempo para Kant,
pois ele mesmo disse que isso são entes (coisas) que existem num
outro tempo a priori (que antecede). Por exemplo, durante este
percurso do trem, temos um tempo inventado por nós encarnados num
tempo absoluto, que vem antes de vermos, no bilhete de passagem, “3
horas de viagem”, ou como o próprio Kant argumenta: “que
as coisas que intuímos não são em si mesmas tais como as intuímos,
nem as suas relações constituídas em si mesmas tais como nos
aparecem”. E como são
então, Mateus?
– Por enquanto,
Sabrina, é importante saber apenas que “espaço e tempo”, como o
próprio Kant afirma são intuições puras a priori
(pré-existentes), como rochas, estruturas absolutas, arenas onde se
dão todos os fenômenos que perpassam a nossa vida cotidiana.
Sabrina, com semblante
interrogativa, ao perceber que a estação final se aproximava e o
trem atravessava velozmente os muros da grande cidade, as favelas, as
fábricas, os carros em alta velocidade, pegando o casaco, fala a
Mateus:
– Passamos horas
refletindo, porém nossa reflexão gravita em torno de absolutos,
determinações. No entanto, nesse tempo e espaço, na concepção de
Kant, está o homem a pensar as coisas, em sua fragilidade, lançados
num existir contingente. Portanto, Mateus, penso muito em Sartre ao
afirmar: “do que adianta construir
grandes castelos de ideias e depois viver numa pobre choupana”,
parece que tudo já está determinado, o nascer, viver, morrer, as
pulsões, o inconsciente, as contingências, e portanto, o que somos
diante dessas determinações absolutas?
– Sim, Sabrina, esse
homem pode ser frágil, carente, mas construiu sua morada, ou seja,
seu “espaço” e “tempo”, que possibilitam o existir, como
nesse instante do “trem”, uma viagem inesquecível.
Desceram do vagão.
Apressaram seus passos pois embarcariam no metrô. No espaço daquela
antiga estação, as pessoas agasalhavam-se ao vento frio e à chuva
fina, naquele início da noite.
De mãos dadas em meio à
multidão, Sabrina e Mateus desapareceram, apenas ao longe apareciam
abraçados.
Então quer dizer que tudo que vivemos e simplismente uma ideia determinada de tempo e espaço pelo absoluto?
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