quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Eu, tu e Kant: Uma viagem inesquecível




Era inverno, madrugada, ainda estava escuro. O carro lentamente parou próximo à Estação de trem, o taxista abriu a porta. Sabrina e Mateus desceram, rumo à estação. Um vento gelado e uma fina chuva caiam sobre as coisas, um senhor de idade atravessava a rua e Mateus, olhando tudo, disse:
– Sabrina, chegou o inverno, vamos tomar café na Estação, enquanto o trem ainda não chega.
– Sim, vamos respondeu ela, ao despedir-se do taxista.
A Cafeteria estava linda, revistas, jornais, pessoas se aproximavam do balcão, o cheiro do café transpassava aquele espaço. Mateus e Sabrina sentaram-se numa mesa redonda de madeira escura, estavam bem agasalhados, e ela, ao pegar a xícara de café, logo disse:
– Mateus, vamos dialogar com o filósofo Kant, principalmente em sua obra mais importante, a Crítica da Razão Pura, que afirmam ser uma revolução na Filosofia.
Na mesa oposta, um casal lia o jornal, de mãos dadas sobre a mesa. De repente o barulho do trem os fizeram levantar-se: – Vamos Sabrina, dialogaremos bastante de Filosofia na viagem!
– Percebe Sabrina?! Nos bancos de sentar próximos ao embarque dos vagões, os nomes antigos dos heróis da cidade estão escritos no concreto daqueles assentos, que já desvelam como a história foi tratada naquela cidade: fatos, heróis e datas; mas as crianças, o cinema, o cotidiano e as mulheres, geralmente, estão fora da História. Num assento próximo a uma enorme coluna de ferro, um casal de cegos e o cachorro com frio quieto dormia ao lado, em plena manhã de inverno, ganhavam a vida ao tocar violão para os transeuntes que ali atravessam, no interior da estação.
Do interior do vagão, pela janela, sentiram o mover do trem, e ao longe avistaram as pessoas se dirigindo para seus postos de trabalho naquela região central da cidade, e Mateus falou:
– Sabrina, você tem ideia do que Kant queria dizer com aquele capítulo “Estética Transcendental”? Parece que esse filósofo alemão de Konigsberg gostava, como dizia Deleuze, de criar e inventar novos conceitos e termos. Sorriu e disse: Você sabe o que são os termos “estética” e “transcendental”?
– Sei que “estética” na Filosofia é tratada por vários pensadores que tentam entender o discurso do belo na Arte, em suas variadas expressões, enquanto “transcendental” aponta até para transcender na questão religiosa para algo superior. Mas como é possível dialogar com Kant?
– O filósofo Kant não está presente fisicamente, mas suas obras e escritos estão presentes, e portanto é pelos textos que vamos dialogar com esse “outro” chamado Kant, – mas como? replicou Sabrina.
O trem atravessava paralelamente a floresta verde e os canaviais, as grandes máquinas colheitadeiras cortavam e colhiam “as canas” sem quase a presença do homem, é o mundo tecnológico.
– Mas antes me lembro, Sabrina, os trabalhadores com seus facões, sem dó dilaceravam os pés de cana, desses enormes canaviais, era o “trabalho duro”, suas botinas os protegiam das cobras e de outros perigos. Nem o barulho do trem parava os movimentos dos cortes daquela enorme máquina dirigida por um trabalhador, pois era a safra e precisava ganhar dinheiro.
– Estou com fome, vamos ao restaurante! Sim, disse Mateus. O trem movia lentamente, ao atravessar uma cidade pequena e antiga, de poucos moradores. Mateus estendeu o celular e fotografou um casarão colonial antigo. – Linda casa! Afirmou o filósofo.
– Bem Mateus, sirva-se, porque eu com esse lanche acho que estou tendo um certo conhecimento!!! Deram risadas os dois. – Sim Sabrina, os sentidos, o corpo na totalidade, as percepções e os modos de perceber a realidade, os “perceptos” no dizer do filósofo Deleuze são meios por excelência de possibilitar os “saberes”. Entretanto de forma muito especial quem tratou dessa questão foi David Hume, filósofo empirista, mas vamos voltar para o texto de Kant. Um senhor de óculos grandes, sentado num canto numa mesa retangular, sozinho, percebia todo o movimento do restaurante, talvez o deleite dele era a observação minuciosa daquele espaço de alimentação no interior do trem.
O que seria o saber que vem antes, o “a priori” de Kant? Perguntou Sabrina.
– Sabrina, antes de sairmos do restaurante reflita comigo, você vê essa xícara agora, não é? Sim, disse ela. Então faça esse exercício em sua mente que o próprio Kant um dia fez: “Se retiro de um corpo (uma xícara) aquilo que o entendimento nele pensa, como substância, força, divisibilidade, etc.., também aquilo que nele pensa pertence à sensação, como impenetrabilidade, dureza, etc..ainda me resta algo”. Agora, faça o mesmo que Kant fez com a xícara aqui em cima da mesa. O idoso olhava e escutava a conversa sentado na mesa no canto, disfarçadamente mexia no celular – Sim Mateus, retirei tudo da xícara, forma, cor, estética, tudo, mas o que sobrou de tudo isso? O nada é isso? Com grande expectativa queria a resposta, Sabrina.
– Sabrina, vamos deixar que o próprio Kant responda para nó: “Se vocês deixarem que se apague gradativamente (...) de um corpo, tudo que é nele empírico (sensações) – a cor, a dureza ou maciez, o peso, mesmo a impenetrabilidade –, permanecerá todavia o espaço (agora inteiramente desaparecido) e este vocês não poderão deixar de fora.” O senhor de idade no canto tossia sem parar, mas ao levar a xícara de café na boca, acalmou-se.
– Nossa, fantástica a ideia de Kant, então ele queria dizer que as coisas, os objetos: cadeira, mesa, casa, sapato, garfo, porta, estante, sabonetes, etc., existem num espaço “a priori”, como as árvores grudadas nas montanhas, Sabrina sorriu. No entanto, o que seria esse “espaço” para Kant? Ele realmente existe?
– Sabrina, vamos dar uma volta nos vagões do trem e perceber o espaço que estamos vivenciando nesse momento, pois é dele que vamos tratar, não é? Eles levantaram-se lentamente e os longos cabelos preto grisalhos de Sabrina deslocaram-se para trás por cima de seu casaco. Enquanto o idoso levantou, pegou sua muleta colonial de imbuia, e com olhos cansados admirava o desejo daqueles dois jovens mergulhados tentando entender as construções de Kant, que mudaria a Filosofia para sempre.
– Enquanto caminhamos, Sabrina, vamos já pensar no que o próprio Kant indagou: “O que são então o espaço e o tempo? São entes (coisas) reais?”. O frio aumentava e a neblina cobria as variadas vegetações, o trem estava lotado, pessoas usavam seus celulares. Enquanto, Sabrina disse:
– “Espaço”, o que seria esse espaço a “priori” de Kant, Mateus?
– Sabrina, está vendo aquela mesa em forma triangular, no canto, ela nos leva a refletir algo importante: como construímos a ideia dessa mesa? Como foi possível? – Mateus estou vendo que é uma linda mesa de imbuia entalhada, e de estilo colonial onde ficam os cardápios, mas como conseguimos construir tal ideia ?
Para que houvesse uma percepção em torno da coisa “mesa”, foram necessárias as sensações, o ver, tocar e sentir, ou melhor, uma infinidade de canais que os sentidos “transportaram” para a mente, pedindo atenção, entendimento. Entendimento, o que seria? Disse Sabrina.
– Sabrina tudo segue uma lógica, ao construirmos o pensar da mesa, e que aponta para indagação: De onde vem essa ordem, essa sequência e unidade?
– Das próprias coisas que não podem vir, porque Kant dizia “percepções sem concepções são cegas”, ou melhor, o mundo tem ordem não por si mesmo, mas porque o pensamento, o “logos”, a “razão”, que o conhece é ele mesmo uma ordenação, “algo lógico”. O frio atravessava todos os vagões, as pessoas pouco falavam, mesmo com as janelas fechadas. Sabrina com ar de sono encostou sua cabeça no ombro de Mateus e disse:
– Parece que tudo já está programado na vida, tudo que está fora de nós é absoluto e poderoso, e nós o que somos diante da finitude da vida? Enquanto isso, ela fixava os olhos numa senhora de idade, acompanhada de seu neto, uma linda criança. Sabrina adormeceu, enquanto Mateus também fechava os olhos, ouvindo a criança dizer : – Vovó, preciso ir ao banheiro.
A sirene do trem aumentava ao aproximar-se da estação. Sabrina acordou e Mateus disse: vamos tomar um café? Sim vamos! disse Sabrina.
Ao mexer o café na mesa, Mateus afirmou:
– Vamos deixar Kant falar, Sabrina, porque agora a mesa triangular está próxima de nós e sobre ela descansam os cardápios: “assim, também nenhum princípio geométrico – por exemplo, o de que no triângulo, dois lados somados são maiores que o terceiro - é jamais deduzido de conceitos universais de linha e triângulo, mas sim da intuição, e isto é a priori”.
– Mateus, então o triângulo já é existente em meu pesamento, isso me cheira herança de Platão, “ideias pré-existentes”, é isso? Sabrina bebia café e sorriu, quando afirmou:
– Essa viagem está maravilhosa, com descobertas e criações, um sentido diferente de viver no mundo, Mateus!
– Esse absoluto, essa coisa poderosa, o “espaço”, só é possível a partir do ponto de vista do homem, porque se sairmos dessa única condição subjetiva do ser humano de pensar, as coisas, o espaço, não existiriam. Vamos pensar, Sabrina, em algo que perpassa o nosso existir a todo momento, ou melhor, o tempo. O que seria essa concepção de tempo para Kant?
O trem aumentava a velocidade, logo chegariam ao destino prometido, o grande astro, o “sol” ao longe desaparecia, e Sabrina falou:
– Parece que na Crítica da Razão Pura, Kant pensa o tempo como algo parecido com a concepção de espaço, olha o que ele diz: “que o tempo não é algo que subsista por si mesmo ou que se ligue às coisas como determinação objetiva”. Portanto, como o espaço, ele é um a priori, uma “rocha” no qual são pendurados os “outros tempos”, algo que vem antes de qualquer concepção de tempo, e tem uma definição interessante dele, “o que se modifica não é o tempo mesmo, mas algo que está no tempo”.
Uma chuva de inverno cobria as pastagens verdes de um extenso campo, o silêncio desvelava sua quietude nos vagões, enquanto uns liam, outros namoravam, ou mexiam nos celulares, mas o trem avançava para o grande centro, o barulho dos carros e das máquinas ao longe já despontavam nos ouvidos dos passageiros.
– Sabrina, o tempo é mais uma determinação a priori, não adianta querer concebê-lo como número ou prazo de validade embutido numa mercadoria, ou dizer um período de tempo da História, nada disso é tempo para Kant, pois ele mesmo disse que isso são entes (coisas) que existem num outro tempo a priori (que antecede). Por exemplo, durante este percurso do trem, temos um tempo inventado por nós encarnados num tempo absoluto, que vem antes de vermos, no bilhete de passagem, “3 horas de viagem”, ou como o próprio Kant argumenta: “que as coisas que intuímos não são em si mesmas tais como as intuímos, nem as suas relações constituídas em si mesmas tais como nos aparecem”. E como são então, Mateus?
– Por enquanto, Sabrina, é importante saber apenas que “espaço e tempo”, como o próprio Kant afirma são intuições puras a priori (pré-existentes), como rochas, estruturas absolutas, arenas onde se dão todos os fenômenos que perpassam a nossa vida cotidiana.
Sabrina, com semblante interrogativa, ao perceber que a estação final se aproximava e o trem atravessava velozmente os muros da grande cidade, as favelas, as fábricas, os carros em alta velocidade, pegando o casaco, fala a Mateus:
– Passamos horas refletindo, porém nossa reflexão gravita em torno de absolutos, determinações. No entanto, nesse tempo e espaço, na concepção de Kant, está o homem a pensar as coisas, em sua fragilidade, lançados num existir contingente. Portanto, Mateus, penso muito em Sartre ao afirmar: “do que adianta construir grandes castelos de ideias e depois viver numa pobre choupana”, parece que tudo já está determinado, o nascer, viver, morrer, as pulsões, o inconsciente, as contingências, e portanto, o que somos diante dessas determinações absolutas?
– Sim, Sabrina, esse homem pode ser frágil, carente, mas construiu sua morada, ou seja, seu “espaço” e “tempo”, que possibilitam o existir, como nesse instante do “trem”, uma viagem inesquecível.
Desceram do vagão. Apressaram seus passos pois embarcariam no metrô. No espaço daquela antiga estação, as pessoas agasalhavam-se ao vento frio e à chuva fina, naquele início da noite.

De mãos dadas em meio à multidão, Sabrina e Mateus desapareceram, apenas ao longe apareciam abraçados.

Um comentário:

  1. Então quer dizer que tudo que vivemos e simplismente uma ideia determinada de tempo e espaço pelo absoluto?

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