sábado, 5 de março de 2016

O Poder além dos muros.

O Poder além dos muros.


– RoboCop, senhor !!
– Enfermaria, senhor !!
– De onde vem essa voz, Pierre? Parece ser de uma criança, disse Isabel. Naquela travessia estreita, de tijolos sobrepostos em concreto, as paredes se erguiam e pelas ventanas (janelas) era possível ver os meninos jogarem bola no campo. No estreito corredor ao final desvelava uma grande porta de ferro como uma pequena janela retangular em forma de grade, que os menores chamavam de RoboCop, onde apenas ao longe uma boca , nariz e um jovem gritando – Enfermaria , senhor!! Era o RoboCop em ação.
– Verônica, nesse espaço de privação da liberdade , parece existir uma outra linguagem?
– Sim, Pierre , estamos no lugar de ressocialização dos menores infratores, espaço de reclusão, e privados da liberdade, onde eles tentam reinventar o existir , uma nova maneira de pensar , linguagens , tatuagens, gestos, diferentes. O lugar procura torná-los “corpos dóceis”, no dizer do filósofo Foucault, quando estão sobre controle da instituição. Entretanto, mesmo assim, eles procuram oxigênio para viver entre os altos muros. Verônica prestava atenção em tudo, acompanhada da amiga Izabel , um mundo diferente revelava para elas. Os muros cercavam aquele existir cotidiano.
– Licença , senhor ! Disse o adolescente, acompanhado de dois homens fortes e altos, funcionários que eles chamavam de “funça”.
– Pierre, o menor passou de cabeça baixa e mãos para trás , de chinelos havianas, bermuda bege e uma camiseta branca , seu “pote” cabeça estava raspada e uma tatuagem de um palhaço em uma das pernas , tenta intimidar toda instituição são marcas de um outro mundo que poucos conhecem, falou para Isabel, enquanto , Pierre voltava a falar  com um dos enfermeiros .
– Acelere menor, está na hora de “pagar o almoço” !! Afirmou um dos funcionários próximo ao refeitório, em ordem todos em fileiras caminhavam rumo ao templo do silêncio , porque era proibido falar , enquanto comiam, quando de repente, Izabel disse:
– Quem gostaria de estar aqui conosco nesse momento seria o filósofo Michel Foucault. Sua obra “Vigiar e Punir”, escrita na década de setenta, parece estar na ordem do dia, porque desvela natureza do regime de reclusão como nesse lugar , principalmente no que diz respeito a disciplina, como Foucault, argumenta : “A disciplina fabrica indivíduos ; ela é a técnica específica de um poder.” O que é o poder , e como ele é possível , quem o legitima ? Que indivíduo é esse ao surgir dessa fabrica da disciplina? Indagava , Izabel.
No pátio próximo ao refeitório, um adolescente estava sentado no chão, esperando ser chamado, para atividades de filme, não tirava os olhos do grande muro: alto, e nas pontas com arrume farpados, com pontas afiadas, impossibilitava a fuga. – Quem foge desse lugar Verônica? É uma sociedade a parte, não é ? Disse, Pierre.
– Uma sociedade a parte, Pierre? Na verdade não seria o mesmo espaço social, que por detrás do muro chamamos de liberdade, na sociedade? Indagou Verônica.
Inesperadamente , sempre em fileira, de mãos para trás , cabeça baixa, um jovem com uma tatuagem no braço, esquerdo disse, para Izabel: licença senhora ! Todos enfileirados caminhavam para sala do filme.
– Pierre , o filme vai começar ! Todos estão em silencio e sentados , atentos para o televisor preso na parede, mas os funcionários em pé , não parava de vigia-los, era preciso cumprir sua função, naquele espaço de reclusão, eram mais de 50 adolescentes , dois deles não paravam de falar um para outro, mas o “funça”, estava de olho neles. De repente , um senhor alto e forte disse:
– Cristiano pote , na parede ! Vamos pote na parede !
– Que isso , pote na parede, Pierre ? Disse Izabel.
– Vamos esperar , Izabel que vai acontecer.
Cristiano, um adolescente de 14 anos, de cabeça baixa e mãos para trás, foi para parede de frente, onde estava o televisor , seu pote, “cabeça” raspada encostou se lentamente naquela parede fria , suas pernas foram abertas, e de mãos para trás ficou naquela posição ate o filme acabar, um espetáculo de sanção disciplinar , a vista de todos, quando Verônica disse:
– Pierre não posso acreditar que , estou vendo acontecer diante de meus olhos , estamos a quase duas horas e o adolescente como estátua em silêncio, cumpre seu “castigo”, por haver , descumprindo as regras desse lugar, sem ninguém manifestar, como pode isso acontecer ?
– Izabel em poucas palavras disse: – É o poder Verônica”!
O filme terminou , Pierre percebia que os adolescentes não tiravam os olhos das filósofas, que na efetividade da existência percebiam, o legado do filósofo Michel Foucault, carentes os adolescentes queriam conversar com elas , abraça-las uma mistura de desejos, afeto , falta da mãe, e ausência de tudo, quando o senhor disse voz alta:
– Quem for pagar carta , fica por aqui, o restante formar para o quarto , vamos !
Ficaram apenas 3 adolescentes, quando Izabel que vestia um lindo vestido longo estilo indiano, cabelos longos , um semblante interrogativo, deu um sorriso ao adolescente, que lhe disse:
– Senhora escreve a carta para mim, não sei escrever, a senhora pode ?
– Claro, disse Izabel, que foi escrevendo o que ele falava:
– Senhora e para minha mãe:
“Oi, mãe como senhora está”, e o pai tá bem? A senhora vai vir me visitar ?
To chapando de cadeia já mãe, não aguento mais, tenho vontade de fugir,
mãe a senhora , foi na quebrada do Zezão resolver aquela parada que te falei,
o Zezão não tá segurando o rexe dele, e tá pagando de louco, diga a ele, que logo estarei no mundão e vamos fazer aquele “corre”. Mãe eu amo senhora, to tirando um tapete em teu nome, mas mãe não consigo largar o crime não, é vida louca. Tá certo senhora. Disse o adolescente:
– É senhora eles vão ler a carta e muitas coisas não pode dizer, mas senhora , recebi a carta de minha namorada. O adolescente, logo pegou a foto dentro da carta e  estava com perfume, como estivesse abraçando, beijando sua namorada. – Eu amo ela senhora, ela é linda, o cheiro do perfume dela me deixa louco, não vejo a hora de ir embora, linda eu te amo, eu te amo ! Disse alto o adolescente. Mas um adolescente esperava uma carta de sua namorada, mas para ele nada veio, triste , abaixou a cabeça e foi para o quarto, quando um dos funcionários, disse:
– Sr. Pierre, vocês precisam ir agora.
– Sim, vamos mas antes quero lhe fazer uma pergunta:
– O que são aqueles quartos  pequenos , nesse corredor estreito, sem contato com outras partes?
O funcionário meio apreensivo, disse:
– Ali é o quarto reflexivo, onde o menor é isolado do convívio quando  sai totalmente, do regimento interno. Sorrindo, Izabel disse:
– É a solitária do menor; deram risada os três... é o poder , disse Pierre.
– A culpa é de quem para esse espaço funcionar assim , em que os funcionários exercem poder sobre os menores? Interrogou , Verônica.
– Verônica , os funcionários aqui exercem “poder” a partir de um corpo de leis, legislação , regimentos que o “ Estado” lhe conferiu, que legitima suas ações, como Foucault já havia afirmado em sua obra “Vontade e Saber”, porque , o “poder” esta em todos os lugares, não é somente do governo exerce sobre seus súditos, mas o poder esta nas relações entre as pessoas. Poder e saber andam de mãos dadas como aqui nesse lugar reclusivo, em que o corpo de  leis e normas legitimam as ações dos funcionários, mas pergunto a vocês , como esses menores também exercem poder sobre os funcionários, sociedade e na instituição reclusiva? Disse , Pierre.
Caminhavam já para o grande portão de saída , o corredor, estreito, quando Izabel disse:
– Os menores exercem poder, através de vários caminhos : a partir de suas linguagens, da força do grupo em ações coletivas como uma rebelião, eles não estão sozinhos , como eles mesmo dizem , “minhas pernas mesmo estando presas correm la fora”, inclusive pelos históricos muitas vezes de crimes , amedronta quem não faz parte dessa vivencia , eles são como uma sociedade a parte, com sua maneira de pensar , sentir e agir, de ações tanto aqui nesse regime reclusivo como la fora na sociedade. As relações de poderes, as punições disciplinares, não é apenas fruto do atual seculo , mas principalmente a partir do período moderno, como afirmava Foucault. De repente um grande barulho :
_Corram ! Corram ! É rebelião !
– Vamos virar a casa , fuja senhora !
Um menor corria para a grande tela próximo do muro alto , em que nas pontas , “arrames farpados” impede a fuga.
– Olhem, o menor esta subindo a grade rapidamente, ele vai pular no outro muro farpado !
Em poucos minutos o menor tinha atravessado as farpas afiadas de metal da tela, e pulou corajosamente , o muro, os funcionários corriam para fora na busca do menor, tudo em vão , ele já estava longe da reclusão, tudo silenciou.
Logo um guarda na guarita, abriu a porta de ferro, e disse:
– Precisam sair logo é rebelião e correm risco. Aqui estão seus celulares, documentos e chaves do carro, quando Isabel namorada de Pierre, disse:
– Dessas horas que passamos dentro desse grande edifício prisional , de tentativa de ressocializar o menor infrator, voltamos para nossa vida em liberdade como eles dizem, entretanto, o que há de comum entre os altos muros das prisões e a vida social , supostamente livre aqui fora na sociedade?
Pierre preocupado com ocorrido , ao abraçar Isabel próximo de seu carro, disse algo extremamente importante em referencia a Michel Foucault:
– Segundo Foucault , vive explicitamente em regime prisional, o que se vive implicitamente, e sutilmente na vida social , além dos muros das prisões, ou seja, todas relações apontam para o “poder “ , a partir de saberes, ideias, leis, normas, etc. O homem é vontade de poder como dizia Nietzsche.
Quando entraram no carro ao longe viram os muros altos e o barulho da rebelião.
O veículo começou a mover, a chuva aumentou, os vidros embaçaram, e os muros desaparecia aos poucos. Verônica dirigia o veiculo, e no banco de trás Isabel encostava sua cabeça no ombro de Pierre e com as mãos dadas , ficaram em silencio. Ao longe viam fumaça subindo do grande edifício prisional. 
Era a vez deles exercerem o “poder”, era um outro saber em ação.
Adeus meninos, disse Isabel, olhando pela janela do carro, segurando nas mãos de Pierre.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015



Nas Bordas do Tempo




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Uma multidão de andorinhas no céu despontava aos nossos olhos. Era a tarde de sábado, as lindas aves estavam para pousar nas árvores da praça central, quando Verônica disse: 
– VenhaJulien, escute o barulho da máquina registradora na bilheteria, olhe os cartazes dos filmes nas paredes. Com bilhetes em mãos, as pessoas caminhavam para a catraca de entrada, enquanto um senhor alto e magro pedia o documento, para confirmar a idade. Aos poucos o cinema revelava suas essências: no canto próximo ao baleiro, um sofá com os pés escuros e com tecido vermelho revestindo seu assento, as cortinas vermelhas que separavam esse espaço preliminar do filme, as paqueras e as trocas de olhares. Uma mulher de vestido curto vendia balas, chocolates e refrigerantes. Era 1979, Verônica e Julien estavam de férias da Faculdade, eram estudantes de Filosofia. 
– Verônica, vamos ao passeio, voltaremos ao cinema, ainda hoje, na última sessão, disse Julien. Os dois saíram de mãos dadas rumo à praça, próxima à catedral. Um vento frio ao som do mover em bandos das andorinhas mobilizava as pessoas a assistirem esse espetáculo da natureza. O tempo naquela tarde estava nublado, era julho, mas um “outro tempo" cobria a cidade, o tempo da ditadura militar. 
Caminhando pela rua central, Julien com seu casaco cumprido e cachecol estava abraçado a Veronica, quando ela disse: 
– Julien, vamos entrar nessa sala de jogos, depois comemos o novo “cachorrão quente”; deram risadas os dois. Entraram no templo da juventude, os jogos eletrônicos, Fliperamas, Asteroides, Galaxian, Star Raiders. – Gosto de Galaxian, porque destruo as naves com tiros, disse Julien, jogando com fulgor. Verônica se deliciava no Fliperama, batendo os dedos das duas mãos fortemente na máquina do jogo. Um senhor que vendia as fichas dos jogos assistia numa televisão preto e branco o campeonato brasileiro. Na verdade não havia quase nada colorido, geralmente as cores escuras eram o quê prevalecia que sobre as paredes frias e silenciosas daquele período. 
–  perdemos muitas fichas e estou com fome, Verônica, vamos comer o novo cachorro quente. Os rapazes paqueravam Verônica, uma jovem de cabelos pretos e longos, e um jeito de ser todo singular, um certo ar de ingenuidade, mas um espírito livre. Julien tinha ciúmes dela e afirmou : “Vamos embora daqui”. Os dois imediatamente foram para a lanchonete. 
– É interessante, aqui no interior já tem o self-service de cachorro quente, veja Verônica: purê de batatas, saladas, os es maiores, e salsichas também, maravilhoso, vou caprichar. Os dois encheram os es de coisas e por cima muito ketchup e maionese. Pegaram coca-cola da máquina e com apetite aguçado comiam e davam risadas. A lanchonete tinha poucas pessoas, estava frio e as nuvens escureciam. O tempo era o inverno de 1979. Verônica segurava nas mãos de Julien, estavam felizes, porque voltariam das férias para o último semestre da Faculdade de Filosofia. InesperadamenteJulien perguntou: 
– O que é o tempo, Verônica? 
– BemJulien, para o filósofo Kant existe um tempo absoluto que precede todas as coisas, ou melhor, é como as montanhas do Himalaia, nada abala ou muda esse tempo, como ele mesmo disse: não é o tempo que muda, mas as coisas que estão no tempo”. Portanto, Julien, não podemos conceber o tempo, porque não é algo nosso, mas vem antes de todas as coisas, é um a priori, absoluto e poderoso. Você não acha , Julien? 
– Se o tempo não é “nosso”, Verônica , então não existe tempo porque somos nós seres humanos que pensamos e fazemos a linguagem do tempo. De mãos dadas, caminhavam pelo calçadão, as crianças cercavam o pipoqueiro, com seu carrinho de vidro em que desvelavam pipocas doces, salgadas e amendoim, e o cheiro das pipocas atravessava toda a praça. O seu João tentava ligar o lampião a gás para colocar dentro do carrinho de pipocas, as crianças olhavam com atenção. A noite adentrava ao existir daquele espaço, as luzes dos postes começavam a acender nos grandes luminosos da praça. E Julien disse: 
– Vamos para o banco da praça. Sentaram-se e começaram a comer pipocas, as crianças corriam pela praça e os engraxates lutavam por alguém para engraxar os sapatos na noite que se aproximava. Um senhor de idade, sozinho, ocupava um banco, seus olhos soltavam ao longe, as andorinhas nos galhos das árvores silenciavam-se. O frio aumentava e a praça começava a esvaziar-se. A praça sem o Homem tornava-se triste, não havia cores vivas nos prédios centrais, mas as paredes estavam ali, silenciosamente davam testemunha de outros tempos. E Julien novamente perguntou : 
– O que é o tempo Verônica? 
– Bem, Julien, pesquisei bastante sobre o “tempo” nos grandes pensadores: Heidegger, Hegel, Kant, Agostinho, suas grandes contribuições são importantes para entender o que é o tempo, mas aprecio ter meus “partos de ideias”. Deram risadas os dois sentados na praça. 
– O tempo procura roubar a essência de nossa vida, o tempo nos aliena e prende a nos um espaço, o tempo nos coloca num “circunscrito” da vida, tipo um cercado, um limite, e você sabe por que, JulienPorque o tempo está ligado ao pensamento, nós pensamos e refletimos o tempo, o tempo não existe sem o ato do pensar. Mesmo sendo o “pensar” uma usina de ideias e criações, como dizia o filósofo Gilles Deleuze, todavia, estamos “circunscritos” a um espaço de vivência, como a sala de jogos, nosso pensar se alienou naquele momento ao estarmos conectados às máquinas eletrônicas. Portanto, o ato do pensar apenas recolhe as bordas e os retalhos do tempo, o pensar no tempo, não é onipresente e absoluto. 
– Verônica, reflexão profunda sobre o tempo, afirmou Julien. De repente, o chafariz ligou uma explosão de cores em movimento nas águas, trouxe um ar novo à praça. 
O tempo pode ser onipresente, “uma rocha” como você disse, Veronica, ao referir-se ao filósofo Kant, mas o nosso pensar, pela sua reflexão de agora, vivencia retalhos, uma borda desse tempo absoluto. Por exemplo, nosso pensar de agora pensa as coisas ao nosso redor, esse pensar restringe-se às migalhas e às bordas de um tempo onipresente. Não podemos estar no tempo que se desvela próximo ao rio Siena em Paris, com suas lindas pontes, ao mesmo tempo de nossa vivência neste espaço que se desdobra ao nosso redor neste instante, como o carrinho de pipoca logo ali na esquina. Assim é para os franceses também, não poderão ir conosco ao cinema daqui a pouco. Estamos nas bordas do tempo e do espaço. O pensar está encarnado num corpo, existente num espaço que já possui uma maneira de pensar, sentir e existir num tempo e espaço “circunscrito”, ou melhor, nas bordas de um tempo que se coloca como absoluto e poderoso, a priori. 
– Qual a saída para sairmos desse tempo circunscritoJulien? 
– A Filosofia nos permite a todo momento sair do circunscrito, Verônica, só de pensar o que é o tempo já é um atravessar das cercas das circuncisões que se instauram para nós. Na Filosofia, não existe ponto final para nada, há uma abertura movente para tudo que existe, inclusive ao absoluto do tempo onipresente, como Kant postulava, mas vamos para o cinema, Verônica. 
Era final da década de setenta, os cinemas lotavam, as praças eram habitadas. – Voltamos a ouvir a máquina registradoraJulien, a catraca movimenta-se. As pessoas estavam agasalhadas para a sessão das 20:00 hrs, logo o filme começaria e Veronica disse: 
– Julien, a música é linda, “concerto de um verão”.  
Aos poucos as luzes o apagando-se, o piano no canto, o silêncio pairava naquela sala enorme de cinema. 
– Estamos circunscritos agora num tempo de 2 horas, mas é um momento singular de nossas vidas, porque é a “7ª arte”, o cinema, Verônica, nesse retalho do tempo muitas coisas ocorrerão, novas descobertas, uma multiplicidade de cores e movimentos, histórias, namoros, amor e o prazer da vida, ainda que circunscrita nas migalhas de um tempo absoluto. 
Inesperadamente, uma explosão de imagens saíram da grande tela do cinema, a música foi silenciando-se, as pessoas atentas esperavam o espetáculo começar. A sessão terminaria às 22 horas, era sábado de inverno. 
De repente, aquele tempo absoluto que Kant afirmava existir como uma rocha independente de tudo, teve que ceder para um outro tempo: finito, frágil, circunscrito, mas que permite ao homem viver, ter prazer e dar sentido a seu existir. Esse tempo Absoluto inveja-se de um tempo que não faz parte de sua natureza, o tempo “finito, frágil, em migalhas”. 

 
– Silêncio, Julien, o filme começou. O som do filme aumentou, a escuridão tomou conta e Julien, inesperadamente, beijou Verônica, nas bordas de um tempo Absoluto, mas ele a beijou. O filme começou. Era julho de 1979.   

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Eu, tu e Kant: Uma viagem inesquecível




Era inverno, madrugada, ainda estava escuro. O carro lentamente parou próximo à Estação de trem, o taxista abriu a porta. Sabrina e Mateus desceram, rumo à estação. Um vento gelado e uma fina chuva caiam sobre as coisas, um senhor de idade atravessava a rua e Mateus, olhando tudo, disse:
– Sabrina, chegou o inverno, vamos tomar café na Estação, enquanto o trem ainda não chega.
– Sim, vamos respondeu ela, ao despedir-se do taxista.
A Cafeteria estava linda, revistas, jornais, pessoas se aproximavam do balcão, o cheiro do café transpassava aquele espaço. Mateus e Sabrina sentaram-se numa mesa redonda de madeira escura, estavam bem agasalhados, e ela, ao pegar a xícara de café, logo disse:
– Mateus, vamos dialogar com o filósofo Kant, principalmente em sua obra mais importante, a Crítica da Razão Pura, que afirmam ser uma revolução na Filosofia.
Na mesa oposta, um casal lia o jornal, de mãos dadas sobre a mesa. De repente o barulho do trem os fizeram levantar-se: – Vamos Sabrina, dialogaremos bastante de Filosofia na viagem!
– Percebe Sabrina?! Nos bancos de sentar próximos ao embarque dos vagões, os nomes antigos dos heróis da cidade estão escritos no concreto daqueles assentos, que já desvelam como a história foi tratada naquela cidade: fatos, heróis e datas; mas as crianças, o cinema, o cotidiano e as mulheres, geralmente, estão fora da História. Num assento próximo a uma enorme coluna de ferro, um casal de cegos e o cachorro com frio quieto dormia ao lado, em plena manhã de inverno, ganhavam a vida ao tocar violão para os transeuntes que ali atravessam, no interior da estação.
Do interior do vagão, pela janela, sentiram o mover do trem, e ao longe avistaram as pessoas se dirigindo para seus postos de trabalho naquela região central da cidade, e Mateus falou:
– Sabrina, você tem ideia do que Kant queria dizer com aquele capítulo “Estética Transcendental”? Parece que esse filósofo alemão de Konigsberg gostava, como dizia Deleuze, de criar e inventar novos conceitos e termos. Sorriu e disse: Você sabe o que são os termos “estética” e “transcendental”?
– Sei que “estética” na Filosofia é tratada por vários pensadores que tentam entender o discurso do belo na Arte, em suas variadas expressões, enquanto “transcendental” aponta até para transcender na questão religiosa para algo superior. Mas como é possível dialogar com Kant?
– O filósofo Kant não está presente fisicamente, mas suas obras e escritos estão presentes, e portanto é pelos textos que vamos dialogar com esse “outro” chamado Kant, – mas como? replicou Sabrina.
O trem atravessava paralelamente a floresta verde e os canaviais, as grandes máquinas colheitadeiras cortavam e colhiam “as canas” sem quase a presença do homem, é o mundo tecnológico.
– Mas antes me lembro, Sabrina, os trabalhadores com seus facões, sem dó dilaceravam os pés de cana, desses enormes canaviais, era o “trabalho duro”, suas botinas os protegiam das cobras e de outros perigos. Nem o barulho do trem parava os movimentos dos cortes daquela enorme máquina dirigida por um trabalhador, pois era a safra e precisava ganhar dinheiro.
– Estou com fome, vamos ao restaurante! Sim, disse Mateus. O trem movia lentamente, ao atravessar uma cidade pequena e antiga, de poucos moradores. Mateus estendeu o celular e fotografou um casarão colonial antigo. – Linda casa! Afirmou o filósofo.
– Bem Mateus, sirva-se, porque eu com esse lanche acho que estou tendo um certo conhecimento!!! Deram risadas os dois. – Sim Sabrina, os sentidos, o corpo na totalidade, as percepções e os modos de perceber a realidade, os “perceptos” no dizer do filósofo Deleuze são meios por excelência de possibilitar os “saberes”. Entretanto de forma muito especial quem tratou dessa questão foi David Hume, filósofo empirista, mas vamos voltar para o texto de Kant. Um senhor de óculos grandes, sentado num canto numa mesa retangular, sozinho, percebia todo o movimento do restaurante, talvez o deleite dele era a observação minuciosa daquele espaço de alimentação no interior do trem.
O que seria o saber que vem antes, o “a priori” de Kant? Perguntou Sabrina.
– Sabrina, antes de sairmos do restaurante reflita comigo, você vê essa xícara agora, não é? Sim, disse ela. Então faça esse exercício em sua mente que o próprio Kant um dia fez: “Se retiro de um corpo (uma xícara) aquilo que o entendimento nele pensa, como substância, força, divisibilidade, etc.., também aquilo que nele pensa pertence à sensação, como impenetrabilidade, dureza, etc..ainda me resta algo”. Agora, faça o mesmo que Kant fez com a xícara aqui em cima da mesa. O idoso olhava e escutava a conversa sentado na mesa no canto, disfarçadamente mexia no celular – Sim Mateus, retirei tudo da xícara, forma, cor, estética, tudo, mas o que sobrou de tudo isso? O nada é isso? Com grande expectativa queria a resposta, Sabrina.
– Sabrina, vamos deixar que o próprio Kant responda para nó: “Se vocês deixarem que se apague gradativamente (...) de um corpo, tudo que é nele empírico (sensações) – a cor, a dureza ou maciez, o peso, mesmo a impenetrabilidade –, permanecerá todavia o espaço (agora inteiramente desaparecido) e este vocês não poderão deixar de fora.” O senhor de idade no canto tossia sem parar, mas ao levar a xícara de café na boca, acalmou-se.
– Nossa, fantástica a ideia de Kant, então ele queria dizer que as coisas, os objetos: cadeira, mesa, casa, sapato, garfo, porta, estante, sabonetes, etc., existem num espaço “a priori”, como as árvores grudadas nas montanhas, Sabrina sorriu. No entanto, o que seria esse “espaço” para Kant? Ele realmente existe?
– Sabrina, vamos dar uma volta nos vagões do trem e perceber o espaço que estamos vivenciando nesse momento, pois é dele que vamos tratar, não é? Eles levantaram-se lentamente e os longos cabelos preto grisalhos de Sabrina deslocaram-se para trás por cima de seu casaco. Enquanto o idoso levantou, pegou sua muleta colonial de imbuia, e com olhos cansados admirava o desejo daqueles dois jovens mergulhados tentando entender as construções de Kant, que mudaria a Filosofia para sempre.
– Enquanto caminhamos, Sabrina, vamos já pensar no que o próprio Kant indagou: “O que são então o espaço e o tempo? São entes (coisas) reais?”. O frio aumentava e a neblina cobria as variadas vegetações, o trem estava lotado, pessoas usavam seus celulares. Enquanto, Sabrina disse:
– “Espaço”, o que seria esse espaço a “priori” de Kant, Mateus?
– Sabrina, está vendo aquela mesa em forma triangular, no canto, ela nos leva a refletir algo importante: como construímos a ideia dessa mesa? Como foi possível? – Mateus estou vendo que é uma linda mesa de imbuia entalhada, e de estilo colonial onde ficam os cardápios, mas como conseguimos construir tal ideia ?
Para que houvesse uma percepção em torno da coisa “mesa”, foram necessárias as sensações, o ver, tocar e sentir, ou melhor, uma infinidade de canais que os sentidos “transportaram” para a mente, pedindo atenção, entendimento. Entendimento, o que seria? Disse Sabrina.
– Sabrina tudo segue uma lógica, ao construirmos o pensar da mesa, e que aponta para indagação: De onde vem essa ordem, essa sequência e unidade?
– Das próprias coisas que não podem vir, porque Kant dizia “percepções sem concepções são cegas”, ou melhor, o mundo tem ordem não por si mesmo, mas porque o pensamento, o “logos”, a “razão”, que o conhece é ele mesmo uma ordenação, “algo lógico”. O frio atravessava todos os vagões, as pessoas pouco falavam, mesmo com as janelas fechadas. Sabrina com ar de sono encostou sua cabeça no ombro de Mateus e disse:
– Parece que tudo já está programado na vida, tudo que está fora de nós é absoluto e poderoso, e nós o que somos diante da finitude da vida? Enquanto isso, ela fixava os olhos numa senhora de idade, acompanhada de seu neto, uma linda criança. Sabrina adormeceu, enquanto Mateus também fechava os olhos, ouvindo a criança dizer : – Vovó, preciso ir ao banheiro.
A sirene do trem aumentava ao aproximar-se da estação. Sabrina acordou e Mateus disse: vamos tomar um café? Sim vamos! disse Sabrina.
Ao mexer o café na mesa, Mateus afirmou:
– Vamos deixar Kant falar, Sabrina, porque agora a mesa triangular está próxima de nós e sobre ela descansam os cardápios: “assim, também nenhum princípio geométrico – por exemplo, o de que no triângulo, dois lados somados são maiores que o terceiro - é jamais deduzido de conceitos universais de linha e triângulo, mas sim da intuição, e isto é a priori”.
– Mateus, então o triângulo já é existente em meu pesamento, isso me cheira herança de Platão, “ideias pré-existentes”, é isso? Sabrina bebia café e sorriu, quando afirmou:
– Essa viagem está maravilhosa, com descobertas e criações, um sentido diferente de viver no mundo, Mateus!
– Esse absoluto, essa coisa poderosa, o “espaço”, só é possível a partir do ponto de vista do homem, porque se sairmos dessa única condição subjetiva do ser humano de pensar, as coisas, o espaço, não existiriam. Vamos pensar, Sabrina, em algo que perpassa o nosso existir a todo momento, ou melhor, o tempo. O que seria essa concepção de tempo para Kant?
O trem aumentava a velocidade, logo chegariam ao destino prometido, o grande astro, o “sol” ao longe desaparecia, e Sabrina falou:
– Parece que na Crítica da Razão Pura, Kant pensa o tempo como algo parecido com a concepção de espaço, olha o que ele diz: “que o tempo não é algo que subsista por si mesmo ou que se ligue às coisas como determinação objetiva”. Portanto, como o espaço, ele é um a priori, uma “rocha” no qual são pendurados os “outros tempos”, algo que vem antes de qualquer concepção de tempo, e tem uma definição interessante dele, “o que se modifica não é o tempo mesmo, mas algo que está no tempo”.
Uma chuva de inverno cobria as pastagens verdes de um extenso campo, o silêncio desvelava sua quietude nos vagões, enquanto uns liam, outros namoravam, ou mexiam nos celulares, mas o trem avançava para o grande centro, o barulho dos carros e das máquinas ao longe já despontavam nos ouvidos dos passageiros.
– Sabrina, o tempo é mais uma determinação a priori, não adianta querer concebê-lo como número ou prazo de validade embutido numa mercadoria, ou dizer um período de tempo da História, nada disso é tempo para Kant, pois ele mesmo disse que isso são entes (coisas) que existem num outro tempo a priori (que antecede). Por exemplo, durante este percurso do trem, temos um tempo inventado por nós encarnados num tempo absoluto, que vem antes de vermos, no bilhete de passagem, “3 horas de viagem”, ou como o próprio Kant argumenta: “que as coisas que intuímos não são em si mesmas tais como as intuímos, nem as suas relações constituídas em si mesmas tais como nos aparecem”. E como são então, Mateus?
– Por enquanto, Sabrina, é importante saber apenas que “espaço e tempo”, como o próprio Kant afirma são intuições puras a priori (pré-existentes), como rochas, estruturas absolutas, arenas onde se dão todos os fenômenos que perpassam a nossa vida cotidiana.
Sabrina, com semblante interrogativa, ao perceber que a estação final se aproximava e o trem atravessava velozmente os muros da grande cidade, as favelas, as fábricas, os carros em alta velocidade, pegando o casaco, fala a Mateus:
– Passamos horas refletindo, porém nossa reflexão gravita em torno de absolutos, determinações. No entanto, nesse tempo e espaço, na concepção de Kant, está o homem a pensar as coisas, em sua fragilidade, lançados num existir contingente. Portanto, Mateus, penso muito em Sartre ao afirmar: “do que adianta construir grandes castelos de ideias e depois viver numa pobre choupana”, parece que tudo já está determinado, o nascer, viver, morrer, as pulsões, o inconsciente, as contingências, e portanto, o que somos diante dessas determinações absolutas?
– Sim, Sabrina, esse homem pode ser frágil, carente, mas construiu sua morada, ou seja, seu “espaço” e “tempo”, que possibilitam o existir, como nesse instante do “trem”, uma viagem inesquecível.
Desceram do vagão. Apressaram seus passos pois embarcariam no metrô. No espaço daquela antiga estação, as pessoas agasalhavam-se ao vento frio e à chuva fina, naquele início da noite.

De mãos dadas em meio à multidão, Sabrina e Mateus desapareceram, apenas ao longe apareciam abraçados.