O Poder além dos muros.
– RoboCop, senhor !!
– Enfermaria, senhor !!
– De onde vem essa voz, Pierre? Parece ser de uma criança, disse Isabel. Naquela travessia estreita, de tijolos sobrepostos em concreto, as paredes se erguiam e pelas ventanas (janelas) era possível ver os meninos jogarem bola no campo. No estreito corredor ao final desvelava uma grande porta de ferro como uma pequena janela retangular em forma de grade, que os menores chamavam de RoboCop, onde apenas ao longe uma boca , nariz e um jovem gritando – Enfermaria , senhor!! Era o RoboCop em ação.
– Verônica, nesse espaço de privação da liberdade , parece existir uma outra linguagem?
– Sim, Pierre , estamos no lugar de ressocialização dos menores infratores, espaço de reclusão, e privados da liberdade, onde eles tentam reinventar o existir , uma nova maneira de pensar , linguagens , tatuagens, gestos, diferentes. O lugar procura torná-los “corpos dóceis”, no dizer do filósofo Foucault, quando estão sobre controle da instituição. Entretanto, mesmo assim, eles procuram oxigênio para viver entre os altos muros. Verônica prestava atenção em tudo, acompanhada da amiga Izabel , um mundo diferente revelava para elas. Os muros cercavam aquele existir cotidiano.
– Licença , senhor ! Disse o adolescente, acompanhado de dois homens fortes e altos, funcionários que eles chamavam de “funça”.
– Pierre, o menor passou de cabeça baixa e mãos para trás , de chinelos havianas, bermuda bege e uma camiseta branca , seu “pote” cabeça estava raspada e uma tatuagem de um palhaço em uma das pernas , tenta intimidar toda instituição são marcas de um outro mundo que poucos conhecem, falou para Isabel, enquanto , Pierre voltava a falar com um dos enfermeiros .
– Acelere menor, está na hora de “pagar o almoço” !! Afirmou um dos funcionários próximo ao refeitório, em ordem todos em fileiras caminhavam rumo ao templo do silêncio , porque era proibido falar , enquanto comiam, quando de repente, Izabel disse:
– Quem gostaria de estar aqui conosco nesse momento seria o filósofo Michel Foucault. Sua obra “Vigiar e Punir”, escrita na década de setenta, parece estar na ordem do dia, porque desvela natureza do regime de reclusão como nesse lugar , principalmente no que diz respeito a disciplina, como Foucault, argumenta : “A disciplina fabrica indivíduos ; ela é a técnica específica de um poder.” O que é o poder , e como ele é possível , quem o legitima ? Que indivíduo é esse ao surgir dessa fabrica da disciplina? Indagava , Izabel.
No pátio próximo ao refeitório, um adolescente estava sentado no chão, esperando ser chamado, para atividades de filme, não tirava os olhos do grande muro: alto, e nas pontas com arrume farpados, com pontas afiadas, impossibilitava a fuga. – Quem foge desse lugar Verônica? É uma sociedade a parte, não é ? Disse, Pierre.
– Uma sociedade a parte, Pierre? Na verdade não seria o mesmo espaço social, que por detrás do muro chamamos de liberdade, na sociedade? Indagou Verônica.
Inesperadamente , sempre em fileira, de mãos para trás , cabeça baixa, um jovem com uma tatuagem no braço, esquerdo disse, para Izabel: licença senhora ! Todos enfileirados caminhavam para sala do filme.
– Pierre , o filme vai começar ! Todos estão em silencio e sentados , atentos para o televisor preso na parede, mas os funcionários em pé , não parava de vigia-los, era preciso cumprir sua função, naquele espaço de reclusão, eram mais de 50 adolescentes , dois deles não paravam de falar um para outro, mas o “funça”, estava de olho neles. De repente , um senhor alto e forte disse:
– Cristiano pote , na parede ! Vamos pote na parede !
– Que isso , pote na parede, Pierre ? Disse Izabel.
– Vamos esperar , Izabel que vai acontecer.
Cristiano, um adolescente de 14 anos, de cabeça baixa e mãos para trás, foi para parede de frente, onde estava o televisor , seu pote, “cabeça” raspada encostou se lentamente naquela parede fria , suas pernas foram abertas, e de mãos para trás ficou naquela posição ate o filme acabar, um espetáculo de sanção disciplinar , a vista de todos, quando Verônica disse:
– Pierre não posso acreditar que , estou vendo acontecer diante de meus olhos , estamos a quase duas horas e o adolescente como estátua em silêncio, cumpre seu “castigo”, por haver , descumprindo as regras desse lugar, sem ninguém manifestar, como pode isso acontecer ?
– Izabel em poucas palavras disse: – É o poder Verônica”!
O filme terminou , Pierre percebia que os adolescentes não tiravam os olhos das filósofas, que na efetividade da existência percebiam, o legado do filósofo Michel Foucault, carentes os adolescentes queriam conversar com elas , abraça-las uma mistura de desejos, afeto , falta da mãe, e ausência de tudo, quando o senhor disse voz alta:
– Quem for pagar carta , fica por aqui, o restante formar para o quarto , vamos !
Ficaram apenas 3 adolescentes, quando Izabel que vestia um lindo vestido longo estilo indiano, cabelos longos , um semblante interrogativo, deu um sorriso ao adolescente, que lhe disse:
– Senhora escreve a carta para mim, não sei escrever, a senhora pode ?
– Claro, disse Izabel, que foi escrevendo o que ele falava:
– Senhora e para minha mãe:
“Oi, mãe como senhora está”, e o pai tá bem? A senhora vai vir me visitar ?
To chapando de cadeia já mãe, não aguento mais, tenho vontade de fugir,
mãe a senhora , foi na quebrada do Zezão resolver aquela parada que te falei,
o Zezão não tá segurando o rexe dele, e tá pagando de louco, diga a ele, que logo estarei no mundão e vamos fazer aquele “corre”. Mãe eu amo senhora, to tirando um tapete em teu nome, mas mãe não consigo largar o crime não, é vida louca. Tá certo senhora. Disse o adolescente:
– É senhora eles vão ler a carta e muitas coisas não pode dizer, mas senhora , recebi a carta de minha namorada. O adolescente, logo pegou a foto dentro da carta e estava com perfume, como estivesse abraçando, beijando sua namorada. – Eu amo ela senhora, ela é linda, o cheiro do perfume dela me deixa louco, não vejo a hora de ir embora, linda eu te amo, eu te amo ! Disse alto o adolescente. Mas um adolescente esperava uma carta de sua namorada, mas para ele nada veio, triste , abaixou a cabeça e foi para o quarto, quando um dos funcionários, disse:
– Sr. Pierre, vocês precisam ir agora.
– Sim, vamos mas antes quero lhe fazer uma pergunta:
– O que são aqueles quartos pequenos , nesse corredor estreito, sem contato com outras partes?
O funcionário meio apreensivo, disse:
– Ali é o quarto reflexivo, onde o menor é isolado do convívio quando sai totalmente, do regimento interno. Sorrindo, Izabel disse:
– É a solitária do menor; deram risada os três... é o poder , disse Pierre.
– A culpa é de quem para esse espaço funcionar assim , em que os funcionários exercem poder sobre os menores? Interrogou , Verônica.
– Verônica , os funcionários aqui exercem “poder” a partir de um corpo de leis, legislação , regimentos que o “ Estado” lhe conferiu, que legitima suas ações, como Foucault já havia afirmado em sua obra “Vontade e Saber”, porque , o “poder” esta em todos os lugares, não é somente do governo exerce sobre seus súditos, mas o poder esta nas relações entre as pessoas. Poder e saber andam de mãos dadas como aqui nesse lugar reclusivo, em que o corpo de leis e normas legitimam as ações dos funcionários, mas pergunto a vocês , como esses menores também exercem poder sobre os funcionários, sociedade e na instituição reclusiva? Disse , Pierre.
Caminhavam já para o grande portão de saída , o corredor, estreito, quando Izabel disse:
– Os menores exercem poder, através de vários caminhos : a partir de suas linguagens, da força do grupo em ações coletivas como uma rebelião, eles não estão sozinhos , como eles mesmo dizem , “minhas pernas mesmo estando presas correm la fora”, inclusive pelos históricos muitas vezes de crimes , amedronta quem não faz parte dessa vivencia , eles são como uma sociedade a parte, com sua maneira de pensar , sentir e agir, de ações tanto aqui nesse regime reclusivo como la fora na sociedade. As relações de poderes, as punições disciplinares, não é apenas fruto do atual seculo , mas principalmente a partir do período moderno, como afirmava Foucault. De repente um grande barulho :
_Corram ! Corram ! É rebelião !
– Vamos virar a casa , fuja senhora !
Um menor corria para a grande tela próximo do muro alto , em que nas pontas , “arrames farpados” impede a fuga.
– Olhem, o menor esta subindo a grade rapidamente, ele vai pular no outro muro farpado !
Em poucos minutos o menor tinha atravessado as farpas afiadas de metal da tela, e pulou corajosamente , o muro, os funcionários corriam para fora na busca do menor, tudo em vão , ele já estava longe da reclusão, tudo silenciou.
Logo um guarda na guarita, abriu a porta de ferro, e disse:
– Precisam sair logo é rebelião e correm risco. Aqui estão seus celulares, documentos e chaves do carro, quando Isabel namorada de Pierre, disse:
– Dessas horas que passamos dentro desse grande edifício prisional , de tentativa de ressocializar o menor infrator, voltamos para nossa vida em liberdade como eles dizem, entretanto, o que há de comum entre os altos muros das prisões e a vida social , supostamente livre aqui fora na sociedade?
Pierre preocupado com ocorrido , ao abraçar Isabel próximo de seu carro, disse algo extremamente importante em referencia a Michel Foucault:
– Segundo Foucault , vive explicitamente em regime prisional, o que se vive implicitamente, e sutilmente na vida social , além dos muros das prisões, ou seja, todas relações apontam para o “poder “ , a partir de saberes, ideias, leis, normas, etc. O homem é vontade de poder como dizia Nietzsche.
Quando entraram no carro ao longe viram os muros altos e o barulho da rebelião.
O veículo começou a mover, a chuva aumentou, os vidros embaçaram, e os muros desaparecia aos poucos. Verônica dirigia o veiculo, e no banco de trás Isabel encostava sua cabeça no ombro de Pierre e com as mãos dadas , ficaram em silencio. Ao longe viam fumaça subindo do grande edifício prisional.
Era a vez deles exercerem o “poder”, era um outro saber em ação.
Adeus meninos, disse Isabel, olhando pela janela do carro, segurando nas mãos de Pierre.

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