domingo, 18 de janeiro de 2015

POR QUE HÁ DOR NA PERDA DO AMOR?


Afirmava o mestre de Viena, Freud (1997), sobre o “amor”: “nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada ou o seu amor.”
O amor traz uma certa vivência de “completude”: de segurança ao estar com a pessoa amada, o carinho, o cuidado de si, o prazer. Entretanto, o amor revela o seu outro lado dialético, o de administrar seu cotidiano inesperado: de ciúmes, posse, indiferenças, traições, etc., além do seu mais dolorido momento que pode ocorrer: a “perda”.
Diante da perda na relação amorosa, as pessoas procuram saídas:
Umas não suportam a dor e vão buscar alívio no mundo das drogas.
Outras, imediatamente, arrumam uma outra pessoa para substituir a perda, mesmo ainda não fazendo o luto da relação anterior.
Há pessoas que não aceitam a perda, e mesmo na ausência do “amado”, vivem em fantasia pelo resto da vida, como se ele estivesse presente ao seu lado.
E há pessoas que buscam o caminho mais polêmico: o “suicídio”. 
Por que essa trágica “dor” da perda instaura uma vivência tão dolorida?
Segundo o psicanalista francês J.D. Nasio (1997): “O que é o luto? É uma reação à perda de um objeto de amor.” Essas reações sendo múltiplas: uns entram em depressão, perda de apetite, outros passam a ter insônia, perdem a motivação de viver, outros se calam e se fecham em si, outros passam a não acreditar mais em amor, enfim, são vários os sintomas. A dor é tão forte que basta uma simples lembrança da vivência amorosa: música, cheiro, objetos, etc., que logo a pessoa já fica mal. Todavia essa mesma dor acaba sendo um mecanismo de defesa e uma reação pela perda do objeto amado, uma maneira de usar todas as forças vivas para manter viva a imagem mental do eleito amado.
Mas o que se perdeu com o desaparecer da pessoa amada? O psicanalista Nasio argumenta: “o que perdi antes de tudo, é o amor a mim mesmo, que outro tornava possível.” 
Sobre o luto, Jacques Lacan (1997) argumenta: “fazemos o luto daqueles que, por sua vez, foram para nós o objeto, a falta, o suporte pulsional do nosso eu ideal.” 
Como superar a dor da perda no amor?
É decisivo saber que a perda da pessoa amada não retira a “pulsão de viver”, na possibilidade em que a pessoa enlutada possa verbalizar sua dor no espaço de acolhimento e aceitação, o “divã analítico”, no sentido de ressignificar seu existir e superar a perda, para uma nova possibilidade de amar.
Continuaremos a refletir em outro momento o dizer de Lacan: “foram para nós (…) falta e suporte pulsional.” 
Parece que sempre na existência “falta” alguma coisa, o que seria?
O amor não seria uma tentativa de suprir essa falta?

Prof. Fabio Luis Rodrigues Figueredo – psicanalista –
LACAN, Jacques. Escritos: Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
NASIO,J.-D. O livro da dor e do amor : Tradução, Lucy Magalhães. – Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

O AMOR E A ANGÚSTIA.



É interessante como o psicanalista francês Philippe Julien concebe o angustiar-se do homem, a experiência da “ausência e permanência do outro”. Seria a vida um alienar-se no outro? Como é perceptível, na vida cotidiana do amor, essa permanência e ausência ?
A primeira experiência de prazer na vida humana revela-se em seu estagio inicial de vida, ou seja, no mamar ou no sugar nos seios da mãe, chamada de zona erógena, por Freud 2006: “diríamos que os lábios da criança comportaram-se como uma zona erógena (prazerosa), e a estimulação pelo fluxo cálido de leite foi sem dúvida a origem da sensação prazerosa”. Entretanto, essa primeira vivência existencial se estende no estar com um outro muito especial, a mãe, ou um substituto. Esse vivenciar traz uma sensação de completude, segurança, amor, carinho e prazer. No entanto, logo quando vem a “ausência” desse ente de amor, a mãe, a criança se desespera, até parece que perdeu tudo, a mãe sumiu. Portanto, logo vem o choro e o grito, mas a mãe não vem de imediato. Ao parar de chorar, a mãe aparece de novo. Essa alternância de estar e de não estar, de ser tudo e de ser nada, é o que gera angústia, que, segundo Philippe Julien (1999), aponta para a loucura, isto é, estar submetido à lei do arbitrário, do capricho, do acaso do outro, isso é o que enlouquece. Não poderia também ser a vivência do amor na fase adulta do ser humano uma “permanência e ausência do outro”, ou melhor , um estender dessa fase infantil?
Quando se tem uma vivência de um amor saudável, parece ser a ausência do outro algo preocupante: Onde estaria o outro? Estaria com outra ou outro? Por que demora para voltar? O que fazer?
Como bebê, o adulto começa a se desesperar, a se procurar, a ligar, a perguntar, etc.. A ausência de quem se gosta, se ama e se deseja, pode instaurar uma experiência de angústia, de vazio e de medo, principalmente quando há uma perda de uma intensa relação afetiva de amor. Mas o que fazer então para superar essa ausência ?
Não é vocação da psicanálise dar fórmulas de “cura”, porque, para ela, “curar” é, na verdade, cuidar da dor, torná-la consciente, integrá-la à vida, ou melhor, aceitar a dor da ausência, no sentido de buscar um “ressignificar” da vida para um existir mais saudável e melhor. De fato, o mestre de Viena alertava em seu dizer: “deixar de ressignificar a vida é adoecer-se”.
Prof. Fábio Luis Rodrigues Figueiredo – psicanalista –
FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 7: Um Caso de Histeria , Três Ensaios sobre Sexualidade e outros trabalhos (1901-1905). Rio de Janeiro : Imago Editora, 2006
JULIEN , P. As Psicoses um estudo sobre a paranóia comum. Rio de Janeiro : Companhia de Freud, 1999.

SENTIMENTO DE CULPA?


Em Viena em 1933, Freud reescreveu como estudo pessoal as “novas conferências introdutórias à psicanálise”, que foram proferidas pelo mestre de Viena nos semestres de inverno em 1915-16 e 1916-17, nos quais a temática, “dissecção do aparelho psíquico”, contida no texto desvela esse “eu” em si, no despertar da aurora, tal como:
“desde o inicio sustentamos que o ser humano adoece graças ao conflito entre as exigências da vida instintual e a resistência que nele se estabelece contra elas em nenhum instante esquecemos essa instância que resiste, rechaça, reprime, que imaginamos dotadas de suas forças particulares,, os instintos do Eu” (FREUD, 2010 p. 193).
A partir dessa relação do “eu” com o “inconsciente” na questão do adoecer, o mestre de Viena argumenta que além desse “eu” há uma consciência. Por exemplo, quando alguém quer fazer algo fora dos padrões da moral, algo de imediato, lhe contrapõe, não permitindo tal intento. Para essa consciência acusativa que é mais uma instância do eu, Freud deu o nome de “super eu”, ou “super ego”. Mas o que seria essa realidade psíquica?
A genialidade de Freud foi por excelência sua capacidade observadora, pois ele procura partir sempre da existência concreta, como no exemplo do surto melancólico, palavra essa oriunda do grego melagkholia: “condição de ter bile negra”, isto é, situação doentia que desdobra em profunda tristeza, estado sombrio, depressão e da qual o “super eu”, sem piedade, humilha tremendamente esse pobre “eu”. Na cotidianidade, é como aquele cristão puritano que recebe inesperadamente um convite fora das leis da igreja e tenta resistir, mas não consegue e cede ao ato, mas logo em seguida experimentará a tensão entre o “eu” e o “super-eu”, ou seja, o “sentimento de culpa” que lhe atormentará até a reestabilização do “eu”, pelo labor terapêutico. 
Enfim, o representante de todo o limite moral é o “super-eu”, chamado de ideal de “eu”, que é uma instância psíquica , do qual ninguém escapa, mas compreendido e aceito no divã analítico.
Fabio luis Rodrigues Figueiredo – psicanalista – 
.FREUD, S. O mal-estar da civilização, novas conferencias introdutórias à psicanálise e outros textos. São Paulo. Companhia das Letras, 2010.