Em Viena em 1933, Freud reescreveu como estudo pessoal as “novas conferências introdutórias à psicanálise”, que foram proferidas pelo mestre de Viena nos semestres de inverno em 1915-16 e 1916-17, nos quais a temática, “dissecção do aparelho psíquico”, contida no texto desvela esse “eu” em si, no despertar da aurora, tal como:
“desde o inicio sustentamos que o ser humano adoece graças ao conflito entre as exigências da vida instintual e a resistência que nele se estabelece contra elas em nenhum instante esquecemos essa instância que resiste, rechaça, reprime, que imaginamos dotadas de suas forças particulares,, os instintos do Eu” (FREUD, 2010 p. 193).
A partir dessa relação do “eu” com o “inconsciente” na questão do adoecer, o mestre de Viena argumenta que além desse “eu” há uma consciência. Por exemplo, quando alguém quer fazer algo fora dos padrões da moral, algo de imediato, lhe contrapõe, não permitindo tal intento. Para essa consciência acusativa que é mais uma instância do eu, Freud deu o nome de “super eu”, ou “super ego”. Mas o que seria essa realidade psíquica?
A genialidade de Freud foi por excelência sua capacidade observadora, pois ele procura partir sempre da existência concreta, como no exemplo do surto melancólico, palavra essa oriunda do grego melagkholia: “condição de ter bile negra”, isto é, situação doentia que desdobra em profunda tristeza, estado sombrio, depressão e da qual o “super eu”, sem piedade, humilha tremendamente esse pobre “eu”. Na cotidianidade, é como aquele cristão puritano que recebe inesperadamente um convite fora das leis da igreja e tenta resistir, mas não consegue e cede ao ato, mas logo em seguida experimentará a tensão entre o “eu” e o “super-eu”, ou seja, o “sentimento de culpa” que lhe atormentará até a reestabilização do “eu”, pelo labor terapêutico.
Enfim, o representante de todo o limite moral é o “super-eu”, chamado de ideal de “eu”, que é uma instância psíquica , do qual ninguém escapa, mas compreendido e aceito no divã analítico.
Fabio luis Rodrigues Figueiredo – psicanalista –
.FREUD, S. O mal-estar da civilização, novas conferencias introdutórias à psicanálise e outros textos. São Paulo. Companhia das Letras, 2010.

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