É interessante como o psicanalista francês Philippe Julien concebe o angustiar-se do homem, a experiência da “ausência e permanência do outro”. Seria a vida um alienar-se no outro? Como é perceptível, na vida cotidiana do amor, essa permanência e ausência ?
A primeira experiência de prazer na vida humana revela-se em seu estagio inicial de vida, ou seja, no mamar ou no sugar nos seios da mãe, chamada de zona erógena, por Freud 2006: “diríamos que os lábios da criança comportaram-se como uma zona erógena (prazerosa), e a estimulação pelo fluxo cálido de leite foi sem dúvida a origem da sensação prazerosa”. Entretanto, essa primeira vivência existencial se estende no estar com um outro muito especial, a mãe, ou um substituto. Esse vivenciar traz uma sensação de completude, segurança, amor, carinho e prazer. No entanto, logo quando vem a “ausência” desse ente de amor, a mãe, a criança se desespera, até parece que perdeu tudo, a mãe sumiu. Portanto, logo vem o choro e o grito, mas a mãe não vem de imediato. Ao parar de chorar, a mãe aparece de novo. Essa alternância de estar e de não estar, de ser tudo e de ser nada, é o que gera angústia, que, segundo Philippe Julien (1999), aponta para a loucura, isto é, estar submetido à lei do arbitrário, do capricho, do acaso do outro, isso é o que enlouquece. Não poderia também ser a vivência do amor na fase adulta do ser humano uma “permanência e ausência do outro”, ou melhor , um estender dessa fase infantil?
Quando se tem uma vivência de um amor saudável, parece ser a ausência do outro algo preocupante: Onde estaria o outro? Estaria com outra ou outro? Por que demora para voltar? O que fazer?
Como bebê, o adulto começa a se desesperar, a se procurar, a ligar, a perguntar, etc.. A ausência de quem se gosta, se ama e se deseja, pode instaurar uma experiência de angústia, de vazio e de medo, principalmente quando há uma perda de uma intensa relação afetiva de amor. Mas o que fazer então para superar essa ausência ?
Não é vocação da psicanálise dar fórmulas de “cura”, porque, para ela, “curar” é, na verdade, cuidar da dor, torná-la consciente, integrá-la à vida, ou melhor, aceitar a dor da ausência, no sentido de buscar um “ressignificar” da vida para um existir mais saudável e melhor. De fato, o mestre de Viena alertava em seu dizer: “deixar de ressignificar a vida é adoecer-se”.
Prof. Fábio Luis Rodrigues Figueiredo – psicanalista –
FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 7: Um Caso de Histeria , Três Ensaios sobre Sexualidade e outros trabalhos (1901-1905). Rio de Janeiro : Imago Editora, 2006
JULIEN , P. As Psicoses um estudo sobre a paranóia comum. Rio de Janeiro : Companhia de Freud, 1999.

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